A reciclagem de determinados tipos de plásticos vai sofrer um duro golpe a partir de Outubro. Copos de iogurte, sacos de batatas fritas e outros recipientes feitos de plásticos mistos, mesmo que depositados nos ecopontos, deixarão de ser recolhidos pela Sociedade Ponto Verde (SPV) - a empresa que gere a reciclagem da maior parte das embalagens em Portugal, em nome da indústria.
Esta é uma das medidas que a SPV está a tomar para evitar nada menos do que a sua falência. Ironicamente, é o próprio sucesso da reciclagem em Portugal que está a asfixiar financeiramente a empresa.
A SPV foi criada por produtores, importadores e distribuidores de embalagens para garantir o cumprimento de metas legais de reciclagem. É financiada por um valor cobrado às empresas aderentes. A maior parte desse dinheiro é repassada às entidades que gerem o tratamento de lixo nos municípios, para suprir os custos da recolha selectiva. É o "valor de contrapartida".
A SPV diz que, nos últimos anos, uma série de factores desestabilizaram esta equação. Um deles é a experiência de recolha dos plásticos mistos, iniciada em 2007. Desde então, os cidadãos podiam já depositar copos de iogurte, por exemplo, no contentor amarelo dos ecopontos, com a certeza de que seriam reciclados.
Segundo António Barahona d"Al-?meida, presidente do conselho de administração da SPV, a experiência foi um sucesso em termos de reciclagem, mas um fiasco financeiro. Os plásticos mistos representam dois por cento das embalagens recolhidas. Mas consumiam 13 por cento dos recursos da empresa. Em dois anos gastaram-se 15 milhões de euros.
Decisão unilateral
A SPV decidiu, por isso, suspender agora a recolha, sustentando que isto não comprometerá as suas metas de reciclagem de plásticos - que hoje já superam a meta para 2011 (ver infografia). Outras embalagens plásticas, como garrafas de água, não são afectadas.
Empresas gestoras de lixo, avisadas ontem por e-mail , reagiram com estupefacção à medida. "A decisão foi uma surpresa, foi unilateral", diz Ana Loureiro, porta-voz da Valorsul, responsável pelo tratamento dos resíduos de Lisboa, Loures, Amadora, Odivelas e Vila Franca de Xira.
As empresas gestoras já estavam organizadas para separar os plásticos mistos e entregá-los à SPV para reciclagem. Além disso, contavam com o valor de contrapartida nos seus cálculos financeiros.
"Não estava nada à espera desta situação", afirma também Fernando Leite, administrador-delegado da Lipor, que trata dos lixos de oito municípios da região do Porto. Antecipando "repercussões muito negativas", Fernando Leite diz que tentará estudar uma solução para que os resíduos continuem a ser reciclados.
A SPV diz que os cidadãos devem continuar a pôr os plásticos mistos no contentor amarelo. Mas como não os vai recolher, o seu destino mais provável será a sua incineração ou deposição em aterro.
"Não faz sentido, depois de tudo o que fez para preparar a sua reciclagem", diz Rui Berckmeier, da associação ambientalista Quercus.
A SPV está preocupada também com outros problemas financeiros. Alguns derivam do próprio sucesso da reciclagem. Por exemplo, os cidadãos despejam no contentor de papel/cartão vários itens que não são embalagens, como jornais, revistas e folhetos. O simples aumento da taxa de reciclagem de embalagens - actualmente em 52 por cento - está também a aumentar a factura com os valores de contrapartida.
"Se continuarmos no caminho que estamos a seguir, estamos a cavar a falência do sistema", afirma Barahona d"Almeida. A empresa preconiza uma série de ajustes, passando também pela quota que cobram às empresas aderentes. Hoje, a SPV vai apresentar uma proposta de aumentos substanciais, em alguns casos para o dobro.
Se tudo funcionar, a empresa terminará o ano com 13 milhões de euros de prejuízo. Se nada for feito, diz Barahona d"Almeida, a empresa não aguentará 2010 e vai à falência.
O secretário de Estado do Ambiente, Humberto Rosa, diz estar consciente das dificuldades da SPV. Mas também recebeu "com estranheza" a decisão sobre os plásticos. "Não é acabando com a reciclagem de alguns materiais que se garante o equilíbrio financeiro", disse ao PÚBLICO. Na sex-?ta-feira, o secretário de Estado recebe a SPV, numa reunião conjunta com o Ministério da Economia, para tentar encontrar uma solução.